quinta-feira, 6 de março de 2014

O ensino para a Pessoa com Surdez

O debate entre oralistas e gestualistas no que tange ao ensino da pessoa com surdez (PS), há dois séculos perpetuado, tem sido uma das causas da secundarização da inclusão das mesmas. Centrados na defesa dos aspectos de uma ou de outra corrente, muitos teóricos acabam deixando de lado o que realmente é fundamental à PS: estar incluída sócio, econômico e culturalmente na sociedade em que vive.
A nova política de Educação Especial proposta pelo MEC prioriza a perspectiva inclusiva a qualquer aluno com necessidades específicas ou especiais, entre essas a PS.
Por essa ótica, a cultura surda muito defendida por um núcleo que tenta distingui-la das demais é refutada. Trata-se de uma visão segregacionista, pois, imbricado a esse pensamento, há um forte marcador de exclusão. É fundamental que seja afastada a idéia de uma identidade ou de uma cultura diferenciada das pessoas com surdez. A perda sensorial auditiva é uma limitação biológica que não incapacita a pessoa ao gozo das suas plenas habilidades. Há toda uma potencialidade do corpo biológico que as tornam pessoas de pensamento e linguagem, como as são as ouvintes.
Diante de todo o exposto, afirma-se a necessidade de romper com o paradigma entre qual língua ensinar e preconiza-se o trabalho pedagógico num campo de comunicação e interação amplo. Nas palavras de Damázio (2010, p. 48), é no “descentramento identitário que concebemos a pessoa com surdez como ser biopsicosocial, cognitivo, cultural, não somente na constituição de sua subjetividade, mas também na forma de aquisição e produção de conhecimentos.”
Essa mudança de perspectiva faz toda a diferença em prol de uma escola que realmente preconize a plenitude do ser humano. Na verdade, trata-se de considerarmos que todos somos singulares, porque cada um de nós tem suas particularidades e que todos somos diferentes, uma vez que essas singularidades nos distingue de qualquer outro ser humano. Se a educação tem de ser dada a todos, então, cada um dentro das suas peculiaridades, limitações ou deficiências, independente de quais forem, devem ter a oportunidade de freqüentar a escola e se desenvolver. Por outro lado, cada grupo social é um universo a ser explorado e a partilhar suas vivências. Em outras palavras, é importante que, como educadores, partamos da idéia de multiculturalismo quando tratamos do ensino de nossos alunos.
É, portanto, sob a ótica multicultural, em consonância com os estudos hodiernos, que devemos conceber a comunicação das PS. Ratifica-se, assim, que não cabe à escola optar por ensinar sob o princípio da oralização ou o da gestualização (respectivamente, LP e LIBRAS). É no bilingüismo visando à ampla comunicação que reside a possibilidade de plena participação no meio social das PSs. Não é demais lembrar que o acesso às duas línguas, Língua Portuguesa e LIBRAS é garantido por lei.
Nesse sentido, é preciso que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) seja ministrado às pessoas com surdez no contraturno e sua matrícula seja regular nas classes comuns. Esse deve contemplar o ensino bilíngue sem que estabeleça qualquer tipo de hierarquia: elas devem ser “línguas de instrução no desenvolvimento de todo o processo educativo” (DAMÁZIO, 2010, p. 52). É imprescindível, também que a sala de aula comum e o AEE sejam complementares entre si, pois é nessa simbiose que se sustentará a práxis educativo-pedagógica do atendimento.
Dito isso, cabe descrever, a título de esclarecimento, os três momentos pedagógicos a serem registrados no que se refere ao AEE da pessoa com surdez:
  1. AEE em LIBRAS: explicação em LIBRAS do conteúdo curricular preferencialmente ministrado por um professor surdo. As referências visuais devem ser utilizadas. Murais de avisos, notícias e de comunicação rápida são muito úteis e facilitadores da aprendizagem vinculada a um contexto real de comunicação.
  2. AEE para o ensino de LIBRAS: consiste num estudo dos termos científicos e de categorização das disciplinas do ensino regular. Pressupõe a pesquisa em conjunto do professor e do aluno em meios disponíveis para tal. Como na etapa anterior, é importante que o professor seja preferencialmente surdo e que o contato entre eles favoreça a aquisição da língua.
  3. AEE para o ensino de Língua Portuguesa: este é o momento voltado para o estudo da estrutura da língua portuguesa (aspectos morfológicos, sintáticos, semânticos e pragmáticos). O investimento, neste momento, deve ser em capacitar a pessoa com surdez a estruturar sequências linguísticas de modo eficiente e adequado às diversas situações de comunicação. Convém ressaltar que os alunos podem optar pela modalidade oral ou não. No primeiro caso é importante trabalhar a fala e a leitura labial. Para este momento, é importante que o professor seja formado preferencialmente em Letras.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Coletânea UFC-MEC/2010: A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar. Fascículo 05: Educação Escolar de Pessoas com Surdez - Atendimento Educacional Especializado em Construção.




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