domingo, 29 de junho de 2014

O Atendimento Educacional Especializado: rompendo paradigmas modelares.

Adriane Farah

Muito nos faz pensar o belo texto de Italo Calvino, O modelo dos modelos.  Mais ainda, perpassa por seus sentidos, a realidade que o AEE vem paulatinamente construindo no cenário educacional brasileiro. Cabe nesse ponto, um depoimento pessoal. Minha chefe, Maria Aparecida Lima, certa feita, a propósito de uma discussão acerca dos rumos que a avaliação dos alunos especiais deveria tomar dentro da realidade do Colégio Pedro II, asseverou que cria que a Educação Inclusiva seria a responsável pela mudança da educação no país. Tal assertiva se tornou de tal forma perene que acabou por se transformar em uma meta para mim, como professora de um modo geral, educadora por ideologia, diretora (que fui) por um contexto e, sobretudo, como professora do AEE, atuando Sala de Recursos Multifuncional e na coordenação do NAPNE do campus São Cristóvão II, como hoje estou. Vou, portanto, trazer a reflexão para a realidade em que vivo.

Se tomarmos como exemplo a primeira época na vida do senhor Palomar, na qual ele buscava um modelo, uma adaptação ao mesmo e uma correção para que a realidade e o modelo coincidam, vestimos no exato tamanho a concepção de educação que permeia o CPII. Há que se reconhecer que grande parte do nosso corpo docente acredita realmente numa educação exemplar a ser seguida. As aulas são planejadas por uma equipe e esta tem de dar conta de tudo o que foi planejado para o período, independente da realidade de cada turma e das necessidades de cada aluno. São aplicadas provas e aqueles alunos que não conseguem atingir o que seria aceitável (modelar) são destinados à recuperação. Se ainda assim, algum aluno não chegar ao ideal, ele é retido na série e perde o grupo, atrasa o término de seus estudos, e tudo o mais que bem sabemos.

Esse viés pedagógico tão difundido, tão arraigado e tão protegido por nós, professores do CPII, passou a ser questionado à medida que a lei da inclusão (especificamente o Decreto nº. 3.298, de 1999, regulamenta a Lei no 7.853, de 24 de outubro de 1989, que dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência) foi trazendo ao escopo do corpo discente alunos com necessidades educacionais especiais ou específicas por meio do sorteio público, meio de acesso ao colégio no 1º ano do EF. Assim, entraram os que normalmente não são aprovados pelo concurso seletivo que dá acesso ao 6º ano do EF. São os nossos alunos diagnosticados com TEA, DV, surdez, DI e quantas mais siglas houver para designar os que não estão dentro da área modelar. E foram cursando os anos escolares, mas não sem nos tirar da zona de conforto:
Mas, se por um instante ele deixava de fixar a harmoniosa figura geométrica desenhada no céu dos modelos ideais, saltava a seus olhos uma paisagem humana em que a monstruosidade e os desastres não eram de todo desaparecidos (CALVINO, op.cit)

E assim como as regras do senhor Palomar foram se modificando, nós estamos nos modificando a partir da realidade que se impõe soberana: não dá para desconsiderar as individualidades e tratar uma turma como uma coletividade amorfa. Não dá mais para avaliarmos nossos alunos por parâmetros modelares. Não dá mais para pensarmos a educação partindo do saber ao qual devemos submeter a todos dentro dos parâmetros considerados normais, bons ou verdadeiros.

Eivados de muitas dúvidas, hoje, questionamo-nos e, assim como o senhor Palomar, estamos relativizando o nosso conceito de modelo. Estamos em processo de vivenciar a impossibilidade de continuar “dando nossas aulas”, “aplicando nossas provas” a despeito do aluno autista, do deficiente visual ou do aluno com surdez, além de todas as especificidades que qualquer ser humano trará em sua singularidade. E isso é um grande passo na mudança da concepção de educação. É o início do caminho “profetizado” pela mencionada Professora Maria Aparecida Lima. É a trilha para, assim como Palomar, apagarmos da nossa mente os modelos e os modelos de modelos, rompendo com a padronização e a homogeneização, entrando em uma linha de conduta da qual se possa extrair satisfações especiais, a única praticável (CALVINO, op.cit.).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CALVINO, Ítalo. O modelo dos modelos, UFC, 2014.

terça-feira, 3 de junho de 2014

ATIVIDADE DE BAIXA TECNOLOGIA PARA ALUNOS COM TGD

ATIVIDADE DE BAIXA TECNOLOGIA PARA ALUNOS COM TGD

O trabalho pedagógico a ser desenvolvido com os alunos com autismo ou transtorno do espectro autista (TEA) não é simples nem tampouco linear. É possível e, mais que isso, necessário o planejamento; no entanto, mais importante ainda, é a avaliação e a reavaliação constante com a alteração de rota quase sempre indispensável quando se trata do caminho percorrido e a percorrer por esses meninos na direção do seu desenvolvimento como indivíduos e como seres sociais.   
Diversos são os recursos de baixa tecnologia de que hodiernamente dispomos e muitos são os que podemos criar para que o trabalho do professor de AEE seja eficiente e atenda às necessidades dos alunos.
No que concerne à ampliação das formas de comunicação, ao comportamento e à interação social do aluno, indico a seguinte atividade:

Sequenciação AVD (Atividades de vida diária) em imagens
Público-alvo: crianças com dificuldade de comunicação, pessoas com surdez, crianças com TEA.
Local de utilização: sala de aula, SRM (sala de recursos multifuncional), na própria casa do aluno.

 http://catalogosp.vanzetti.com.br/index.php/sequenciacao-avd-para-meninos/

Descrição da atividade: por meio de cartões com sequência da vida cotidiana, podemos ajudar os alunos com TEA a superar as barreiras de uso social dos comportamentos, visando ao seu bem estar e à convivência social. A sequência também pode ser útil à comunicação, uma vez que pode ser utilizada tanto pelo professor para mostrar o passo-a-passo necessário para cumprir as tarefas essenciais, como pelo aluno que ainda não se permite ou não consegue interagir por meio de diálogo com o objetivo de indicar a um adulto as suas necessidades.
O professor, portanto, pode disponibilizar tais cartões, logicamente focando uma sequencia por vez, agindo juntamente com o aluno a partir das imagens. Outra possibilidade, além do potencial comunicador descrito anteriormente, é, com o objetivo de apropriação da tarefa, tendo já sido realizada concretamente pelo aluno algumas vezes, é pedir para pôr em ordem correta uma sequência que tenha sido propositadamente alterada.   Ressalte-se que isso só é indicado quando o aluno já demonstra alguma autonomia na realização da tarefa.

Cumpre, para finalizar, uma observação que julgo ser de imensa importância. Trabalhar AVD com alunos que tenham TEA é indispensável. Trata-se de um recurso fundamental à socialização e à autonomia do aluno, tanto na comunicação como nos comportamentos. No entanto, não podemos nos restringir a isso. Embora essa tenha sido tradicionalmente a abordagem oferecida aos alunos com autismo ou TEA, hoje, a partir da obrigatoriedade da inclusão e das consequentes pesquisas advindas desse fato, estamos cada vez mais cientes do grande potencial de desenvolvimento cognitivo e de vida cidadã deles. E, como professores, devemos obrigatoriamente desenvolver o máximo que eles – todos os nossos alunos, independentemente da sua especificidade - puderem alcançar.