O Atendimento Educacional Especializado: rompendo paradigmas modelares.
Adriane Farah
Muito
nos faz pensar o belo texto de Italo Calvino, O modelo dos modelos. Mais ainda,
perpassa por seus sentidos, a realidade que o AEE vem paulatinamente
construindo no cenário educacional brasileiro. Cabe nesse ponto, um depoimento
pessoal. Minha chefe, Maria Aparecida Lima, certa feita, a propósito de uma
discussão acerca dos rumos que a avaliação dos alunos especiais deveria tomar
dentro da realidade do Colégio Pedro II, asseverou que cria que a Educação
Inclusiva seria a responsável pela mudança da educação no país. Tal assertiva se
tornou de tal forma perene que acabou por se transformar em uma meta para mim,
como professora de um modo geral, educadora por ideologia, diretora (que fui)
por um contexto e, sobretudo, como professora do AEE, atuando Sala de Recursos
Multifuncional e na coordenação do NAPNE do campus
São Cristóvão II, como hoje estou. Vou, portanto, trazer a reflexão para a
realidade em que vivo.
Se
tomarmos como exemplo a primeira época na vida do senhor Palomar, na qual ele
buscava um modelo, uma adaptação ao mesmo e uma correção para que a realidade e
o modelo coincidam, vestimos no exato tamanho a concepção de educação que
permeia o CPII. Há que se reconhecer que grande parte do nosso corpo docente
acredita realmente numa educação exemplar a ser seguida. As aulas são planejadas
por uma equipe e esta tem de dar conta de tudo o que foi planejado para o
período, independente da realidade de cada turma e das necessidades de cada
aluno. São aplicadas provas e aqueles alunos que não conseguem atingir o que
seria aceitável (modelar) são destinados à recuperação. Se ainda assim, algum
aluno não chegar ao ideal, ele é retido na série e perde o grupo, atrasa o término
de seus estudos, e tudo o mais que bem sabemos.
Esse
viés pedagógico tão difundido, tão arraigado e tão protegido por nós,
professores do CPII, passou a ser questionado à medida que a lei da inclusão (especificamente o Decreto nº. 3.298, de 1999, regulamenta a Lei no
7.853, de 24 de outubro de 1989, que dispõe sobre a Política Nacional para a
Integração da Pessoa Portadora de Deficiência) foi trazendo ao
escopo do corpo discente alunos com necessidades educacionais especiais ou
específicas por meio do sorteio público, meio de acesso ao colégio no 1º ano do
EF. Assim, entraram os que normalmente não são aprovados pelo concurso seletivo
que dá acesso ao 6º ano do EF. São os nossos alunos diagnosticados com TEA, DV,
surdez, DI e quantas mais siglas houver para designar os que não estão dentro
da área modelar. E foram cursando os anos escolares, mas não sem nos tirar da
zona de conforto:
Mas,
se por um instante ele deixava de fixar a harmoniosa figura geométrica desenhada
no céu dos modelos ideais, saltava a seus olhos uma paisagem humana em que a
monstruosidade e os desastres não eram de todo desaparecidos (CALVINO, op.cit)
E
assim como as regras do senhor Palomar foram se modificando, nós estamos nos
modificando a partir da realidade que se impõe soberana: não dá para
desconsiderar as individualidades e tratar uma turma como uma coletividade
amorfa. Não dá mais para avaliarmos nossos alunos por parâmetros modelares. Não
dá mais para pensarmos a educação partindo do saber ao qual devemos submeter a
todos dentro dos parâmetros considerados normais, bons ou verdadeiros.
Eivados
de muitas dúvidas, hoje, questionamo-nos e, assim como o senhor Palomar, estamos
relativizando o nosso conceito de modelo. Estamos em processo de vivenciar a
impossibilidade de continuar “dando nossas aulas”, “aplicando nossas provas” a
despeito do aluno autista, do deficiente visual ou do aluno com surdez, além de
todas as especificidades que qualquer ser humano trará em sua singularidade. E
isso é um grande passo na mudança da concepção de educação. É o início do
caminho “profetizado” pela mencionada Professora Maria Aparecida Lima. É a
trilha para, assim como Palomar, apagarmos da nossa mente os modelos e os
modelos de modelos, rompendo com a padronização e a homogeneização, entrando em
uma linha de conduta da qual se possa extrair satisfações especiais, a única
praticável (CALVINO, op.cit.).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CALVINO,
Ítalo. O modelo dos modelos, UFC, 2014.
